Pio IX, A Contra-Revolução e o Dogma da Imaculada Conceição

No mês de março, li “Pio IX”, livro escrito por um renomado historiador, o professor Roberto de Mattei. É um livro que exige bastante do leitor, visto que, além do próprio pontificado de Pio IX ter sido longuíssimo, o século XIX foi um período de inúmeras convulsões revolucionárias e mudanças bruscas no modo de vida das sociedades em geral. Portanto, a história que se lerá é entrelaçada em diversas guerras, surgimento de seitas maçônicas revolucionárias, discussões doutrinárias em torno do racionalismo laicista e ateu, investida do liberalismo filosófico; e, todos estes acontecimentos, apontando para o centro do mundo católico: Roma e o Papado.

Eram tempos sinistros para a Santa Igreja, em que quase não havia país ou exército disposto a defender o Santo Padre; a tal ponto as coisas se encaminharam num sentido revolucionário, que Pio IX se viu constrangido a fugir de Roma numa ocasião em que os revolucionários italianos invadiram os Estados Papais, e, noutra ocasião, foi obrigado a se fazer prisioneiro no próprio Vaticano, quando Garibaldi e seus sequazes invadiram e tomaram os Estados Pontifícios.

Pio IX e a Contra-Revolução

O que impressiona nisto tudo é que, apesar de todos apontarem seus canhões para Roma – com campanhas de difamação da Santa Igreja e do Papado e, as vezes, literalmente com armas – Pio IX se manteve firme no seu dever de Chefe Espiritual da Santa Igreja e Chefe Temporal dos Estados Pontifícios, defendendo assim seus direitos de mando sobre as almas e de mando sobre seus estados. O papa tinha uma clareza surpreendente sobre as metas da Revolução. O imperador Victor Manuel, que extinguiu as ordens religiosas no seu Estado e confiscou os bens da Igreja, em certa ocasião ofereceu seu exército para proteger a vida do Papa, mas, ao mesmo tempo exortando Pio IX a ceder em alguns pontos à Revolução, ao que o papa respondeu:

“Raça de víboras, sepulcros caiados! (…) Eis até onde a revolução fez descer um rei da Casa de Sabóia!”

E depois, em carta, responde-lhe o seguinte:

“Pelo conde Ponza di San Martino foi-me entregue uma carta que V.M. quis dirigir-me, mas que não é digna de um Filho afectuoso, que se gloria de professar a fé católica e se preza de lealdade régia. Não entro nos detalhes da própria carta para não renovar a dor que a primeira leitura me ocasionou. Louvo a Deus por permitir a V.M. de cumular de amargura o último período de minha vida. De resto, Eu não posso admitir certas exigências, nem conformar-me com certos princípios contidos na sua carta…”

Que fortes palavras! Mas, acima de tudo, que clareza na verdade. Eis aí um exemplo de intransigência santa e altamente contra-revolucionária. E isto nos faz lembrar outro papa que escolheu para si o nome de Pio: São Pio X, que dizia que o católico sempre deveria dizer a verdade inteira, e nunca esconder ou fazer do catolicismo uma bandeira velada, da qual se tem certa vergonha em professar.

Pio IX, numa época toda contrária ao Papado, fez a verdade aparecer inteira, tal como ela é!

O Dogma da Imaculada Conceição e o triunfo da Contra-Revolução

Como é conhecido por todos os católicos, Pio IX proclamou o dogma da Imaculada Conceição, no dia 8 de dezembro de 1854, no qual declara que a Virgem Santíssima foi preservada, desde o instante de sua concepção, do pecado original.

À primeira vista, podemos ser tentados a pensar que a definição deste dogma apenas pretendia fixar uma verdade que já vinha sendo crida desde os primeiros tempos da fé católica. Mas, o papa, conhecedor dos males do racionalismo, quis propor uma solução perfeita para restaurar a Civilização Cristã.

“Ele (o papa) manifesta oa osoua profunda convicção na existência de uma relação entre a Mãe de Deus e os acontecimentos históricos, e, de modo particular, da importância do privilégio da sua Imaculada Conceição, como antídoto para os erros contemporâneos, cujo fulcro está precisamente na negação do pecado original”.

Portanto, a declaração do dogma não pode ser considerada apenas como tese abstrata e da esfera estritamente teológica, mas também ser vista “na sua projecção histórica e social”.

Para comprovar o que dizemos, citamos a própria bula (Ineffabilis Deus) em que foi proclamado o dogma. Diz Pio IX: “A grandeza deste privilégio valerá muitíssimo ainda para refutar aqueles que negam ter sido a natureza humana corrompida pela primeira culpa e enaltecem as forças da razão, a fim de negar ou diminuir o benefício da Revelação. Que a Santíssima Virgem, destrutora de todas as heresias, faça arrancar de raiz e destruir este perniciosíssimo erro do racionalismo que, nestes tempos infelicíssimos, tanto aflige e atormenta, não só a sociedade civil como a própria Igreja”.

Por fim, para se compreender os erros que o papa pretendia combater, citamos o famoso estadista Donoso Cortés, que explicou de modo bem sistemático o fundo teológico dos erros da Revolução e o golpe vibrante que Pio IX lhe deu quando proclamou a Imaculada Conceição.

Diz Donoso Cortés: “A negação do pecado original é um dos dogmas fundamentais da Revolução. Supor que o homem não tenha caído no pecado original significa negar, e nega-s efetivamente, que o homem tenha sido redimido. Supor que o homem não foi redimido significa negar, e nega-se efetivamente, o mistério da Redenção e da Encarnação, o dogma da personalidade exterior do Verbo e o próprio Verbo. Supor a integridade natural da vontade humana, de um lado, e não reconhecer, de outro, a existência de outro mal e de outro pecado além do pecado filosófico, significa negar, e nega-se efetivamente, a ação santificante de Deus sobre o homem e, com ela, o dogma da personalidade do Espírito Santo. De todas estas negações deriva a negação do dogma soberano da Santíssima Trindade, pedra angular da nossa fé e fundamento de todos os dogmas católicos”.

Então, quando Pio IX proclama que a Virgem Santíssima foi a única criatura concebida sem pecado original, quer dizer que todos os homens possuem a primeira culpa, e, portanto, não têm condições de bastar-se a si mesmos apenas pelo uso da inteligência; mas, sim, que dependem da graça divina, cuja porta nos foi aberta pela Redenção do Filho Encarnado, que veio ao mundo através da mesma Virgem Maria!

Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós!

 


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